João Campos promete isentar IPVA de motos, mas o seu partido PSB, foi quem mais apreendeu veículos, as apreensões de motos eram expressivas no Pajeú

Candidato do PSB promete isentar motocicletas de trabalhadores rurais, mas histórico de apreensões e cobranças de débitos durante governos do próprio partido volta ao centro do debate político

A promessa do candidato ao Governo de Pernambuco João Campos (PSB) de zerar o IPVA das motocicletas utilizadas por trabalhadores rurais começa a provocar um debate incômodo no Sertão do Estado: se a dificuldade para pagar o imposto sempre atingiu principalmente os pequenos agricultores, por que medidas semelhantes não foram adotadas anteriormente pelos governos do próprio PSB?

Durante sua agenda no Sertão do Pajeú, João Campos defendeu o programa “Moto Rural, Moto Legal”, que prevê a isenção do IPVA para motocicletas de trabalhadores rurais, além de CNH gratuita e outras medidas de regularização. Segundo o candidato, a proposta surgiu após ouvir relatos de agricultores que tiveram suas motocicletas apreendidas nas gestões do PSB do próprio João, por não conseguirem quitar o imposto.

A questão, entretanto, ganha contornos políticos quando se observa o histórico do Estado.

A realidade das apreensões já era conhecida

Documentos e registros da época mostram que o problema das motocicletas apreendidas por débitos não é recente.

Em agosto de 2009, durante o governo de Eduardo Campos, pai de João Campos, a Assembleia Legislativa de Pernambuco registrava que o número de motos apreendidas no interior era expressivo. A publicação também relatava que muitos proprietários não tinham interesse ou condições de retirar os veículos dos pátios justamente em razão do alto custo do IPVA em atraso. Naquele momento, um projeto que buscava criar regras de gratuidade do IPVA para motocicletas de até 150 cilindradas chegou a pedir apoio ao então governador Eduardo Campos, que não aceitou.

Anos depois, já durante o governo de Paulo Câmara, também do PSB, o problema continuava presente. Em 2021, o governo encaminhou à Assembleia Legislativa uma proposta de anistia das dívidas de motocicletas de baixa cilindrada, posteriormente aprovada e sancionada. A medida alcançou débitos de IPVA e outras taxas acumulados até 31 de dezembro de 2020.

Na época, reportagens também registraram críticas à política de apreensão e ao elevado número de motocicletas recolhidas pelo Estado.

A pergunta que fica para o eleitor do Sertão

É justamente nesse histórico que surge a principal pergunta política: por que somente agora a isenção do IPVA das motos dos trabalhadores rurais aparece como uma das principais bandeiras do PSB para o Sertão?

João Campos apresenta a proposta como uma medida de justiça social e tributária. Em junho deste ano, durante agenda em Afogados da Ingazeira, ele afirmou que recebeu relatos de trabalhadores que tiveram suas motos apreendidas por dificuldades para pagar o IPVA.

A proposta, portanto, reconhece uma realidade enfrentada há anos por agricultores e trabalhadores que dependem da motocicleta para chegar à propriedade, transportar ferramentas, buscar insumos e escoar a produção.

Mas o debate eleitoral também permite outra leitura: se o problema já era conhecido durante administrações anteriores do PSB, por que não houve uma solução definitiva antes?

De Eduardo Campos a Paulo Câmara

Eduardo Campos governou Pernambuco entre 2007 e 2014. Paulo Câmara, também do PSB, comandou o Estado de 2015 a 2022.

Durante esses períodos, o problema das motos apreendidas e dos débitos de IPVA continuou aparecendo no debate público. Em 2014, por exemplo, o Detran-PE removeu 275 motocicletas que estavam no pátio da 24ª Ciretran, em Afogados da Ingazeira, para um pátio de leilões. A situação gerou discussão sobre dívidas e dificuldades dos proprietários para recuperar os veículos.

Em 2021, já no governo Paulo Câmara, o Estado precisou criar uma anistia para débitos de motocicletas de baixa cilindrada. A legislação contemplou dívidas de IPVA e outras taxas acumuladas até o final de 2020.

Ou seja, o problema das motos dos pequenos proprietários não nasceu agora e também não é desconhecido pelo grupo político que hoje apresenta a isenção como uma nova solução.

João Campos promete mudar a política

Ao defender o programa “Moto Rural, Moto Legal”, João Campos afirma que, caso eleito, pretende substituir a lógica de apreensão pela regularização.

Além do IPVA zero para trabalhadores rurais, o candidato promete ampliar a CNH Social, oferecer formação gratuita e distribuir equipamentos de segurança. Em uma declaração durante sua agenda no Sertão, chegou a resumir a proposta dizendo que, em vez de apreender a moto, o governo deverá ajudar o trabalhador a regularizar sua situação, o que seu partido nunca fez.

Mais recentemente, João também ampliou a promessa para motocicletas de até 180 cilindradas, afirmando que a medida poderá beneficiar cerca de 1,4 milhão de motos em Pernambuco.

A proposta agrada especialmente no interior, onde a motocicleta muitas vezes não representa luxo ou lazer, mas uma ferramenta indispensável para o trabalho e para a sobrevivência das famílias rurais.

Promessa eleitoral ou correção de uma dívida histórica?

O eleitor sertanejo agora terá a oportunidade de avaliar a proposta e também o histórico dos governos anteriores.

A pergunta que fica é simples: o IPVA zero para as motos dos agricultores representa uma nova política ou uma correção tardia de um problema que o próprio PSB já conhecia quando esteve à frente do Governo de Pernambuco por 16 anos?

A resposta caberá ao eleitor nas urnas que parece que esqueceu que diariamente blitz eram montadas nas ruas de Carnaíba, Quixaba, Flores e principalmente Afogados da Ingazeira apreendendo motos dos agricultores.

Uma coisa, porém, é inegável: a motocicleta do agricultor sertanejo deixou de ser apenas um veículo e passou a ocupar lugar central no debate político de 2026.

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