O soldado Zé Inácio que morava bem na frente do telegrafista e que estava doente de febre tifo, temendo por sua sorte, enrolou-se num cobertor e saiu pela cerca do quintal para a residência de Joaquim Leandro da Silva, conhecido por Joaquim Borrego, atrás da igreja, o qual estava ausente. A família deste, como todas as outras da Vila, deitadas no chão, temendo as balas. Depois da casa de Veríssimo, entraram os cangaceiros, forçando porta e janela, na residência do Major Saturnino, situada a dezoito casas abaixo.
O Major estava fora. E sua esposa, Dona Naninha Grande, ficou sozinha com a fuga de seu filho, Zé Bezerra, pelo quintal. Os cabras respeitaram a mulher, mas roubaram jóias, um rifle e dinheiro. Dalí seguiram para a residência de Manuel José, no outro cordão da rua, já no fim. Bateram na porta. A esposa, Maria Brasileiro, foi atender. Dois cangaceiros entraram e foram logo exigindo dinheiro. Manuel José apareceu e disse que o dinheiro estava guardado na loja. Enquanto um cangaceiro acompanhou Maria Brasileiro até a loja, o outro ficou mantendo o esposo como refém.
Na loja, maria teve a presença de espírito de não mostrar o cofre, mas tão-somente a gaveta do balcão com o apurado do dia, que, na ânsia, foi logo raspado pelo cangaceiro.
Muito dinheiro miúdo, em moedas e cédulas, importância total pequena, O outro companheiro, tão preocupado em manter o refém, nema tinou mandar abrir o baú, onde guardadas as joias, no qual se sentara, de propósito, Manoel José.
Logo que o primeiro voltou, os dois iam começar a contar o dinheiro, ouviram-se tiros do lado de fora. Os dois fugiram levando o dinheiro. Os carnaibanos começaram se movimentar para a reação. Ora, cada comerciante mantinha cabras para defesa em casos como este.
Por exemplo, o Major Saturnino tinha os cabras; João Mororó e João Teotônio; Zé Martins tinha Manoel de Quitola; Luís e Eliseu Cassiano tinham João Lessa; Zé Dantas tinha Zé Marques; Manoel José tinha seu cunhado Zé Vital… E muitos possuíam armas próprias . Uns 20 decididos carnaibanos pulavam de um muro para outro a fim de estabelecer os planos de residências, e tomavam posições nas entreabertas das janelas em em outros reguardos.
Os soldados voltaram para o embate. Dois deles, que estavam no quartel, estabelecido numa casa quase em frente da de Manuel José, não podendo fugir, começaram atirar para o ar a fim de intimidar, mas com isso, gastando munições atoa. Nesse então, das janelas da rua, começaram a partir tiros esparsos, de ponto. Depois, fechou-se o tempo… Por trás do antigo cemitério morava um cidadão da Barra de São Sarafim, chamado Manuel Florentino. Conseguiu ele entrar no beco formado pelo vapor de Zé Jordão e o chalé de Zé Martins e fazendo frente ao beco de Manuel José. Deitado, emparou-se nuns paus colocados deitados a modo de dique para as águas das enxurradas da rua nos tempos de chuvas. Dalí atirava de ponto em direção ao beco de Manuel José, para onde havia corrido alguns cangaceiros por causa dos tiros disparados de vários pontos da rua. Nessa corrida, um dos cangaceiros deixou cair seu fuzil no meio da rua.
Parte dos cangaceiros, da porta e das janelas da morada de Manuel José, atiravam para dentro da rua, respondendo os defensores. Outra parte, da esquina do fim do muro da mesma casa, respostava ao beco. Pedro Florentino ordenou a seu companheiro recém chegado, Pedro Martins, a ir ver o fuzil caído para com ele fazer boca de fogo, isto é, lhe dá cobertura sustentando o fogo. Arrastando-se o xará apanhou o fuzil e permaneceu alí, no mesmo ponto, deitado, atirando. Quando o tiroteio, já quase duas horas, cessou um pouco, disse Pedro Florentino ao outro: _ sé e tomar o portão do oitão”.
Quando atravessou a rua e entrou no beco, recebeu Pedro Florentino as cargas de um rifle peiado e de um fuzil, utilizados por dois cangaceiros. Por sorte, apenas um balaço de fuzil o atingiu na parte superior da coxa, atravessando-a sem atingir o osso. Colocando-se na parede, revidou Pedro Florentino com um tiro de ponto no cangaceiro do rifle, acertando-lhe na mão, o qual deixou a arma cair no canto da parede e nesta imprimindo, de sangue, sua mão ferida.
Pelo portão de detrás do muro, ainda na mesma casa, fugiram os restantes dos cangaceiros. Abrindo a porteira do curral, pularam a cerca que dá acesso às vazantes e desta ganharam o rio. Prenderam Manuel Torquato para mostrar o caminho de Sitio dos Nunes. Pegaram dois cavalos para os baleados. Torquato safou-se, dizendo – “Lá vem a polícia”. Rumaram eles, para o Serrote do Capim ou para a Serrinha dos Eustórgios.
Atrás deles saíram alguns mascates de Carnaíba, como Zé Augustinho, conhecido como Zé Boa Vista, Elpídio do Velho Brejeiro, os empregados de Zé Martins, além de João Mororó… não os encontrando, nem deles tendo noticias. Também não tinham rastejadores para tomarem a pista, Afora o rifle, peiado com um lenço grande, deixado no beco, foi encontrado, dentro da roça, um bornal com farinha, carne e rapadura, cuja correia partira, de certo, no momento de seu possuidor pular a cerca.
Os cangaceiros, como os militares da policia, não possuíam tática de guerra, Típico do ataque de Jararaca a Carnaíba. Por isso, o que lhes faltava em estratagema, sobrava em desmandos e perversidades. Somente Lampião, naquela época no sertão, sabia usar de tática e que táticas geniais! Mais tarde surgiria seu irmão Ezequiel com pendores táticos, mas prematuramente morto”.
José Leite de Santana, conhecido por Jararaca, nasceu em Buíque, em 5 de maio de 1901 e morreu em Mossoró, 18 de junho de 1927), quando em um ataque à cidade, foi ferido, capturado e enterrado vivo.
Fez parte do bando de Lampião, porém, entre 1920 e 1926 foi soldado do exército, onde participou da Revolta Paulista de 1924, sob o comando de Isidoro Dias Lopes, mas deixou a farda para entrar para o cangaço, com uma participação, neste grupo, muito curta, pois no ataque a cidade de Mossoró, em junho de 1927, foi preso e justiçado (morto sumariamente sem julgamento, após 4 dias de prisão) pelo soldado João Arcanjo.
Acredita-se que Jararaca é um santo, pois antes de morrer, arrependeu-se dos crimes praticados e depois de morto, credita-se a ele algumas graças alcançadas, portanto, é considerado um santo popular na região de Mossoró.



Parabéns pelo texto.