A segunda etapa do Vigisan (Inquérito Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia Covid-19 no Brasil), divulgada hoje, revela que a fome atormenta mais os lares em que vivem crianças com menos de dez anos. De acordo com o levantamento, 37,8% dos domicílios onde moram essas crianças enfrentam insegurança alimentar grave ou moderada, ou seja, passam fome ou têm uma dieta insuficiente. O percentual é 20% maior do que a média nacional, de 30,7%, quando levados em conta todos os domicílios…
O levantamento foi realizado pela Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), que envolve seis entidades parceiras. Em junho, a primeira fase da pesquisa mostrou que 33 milhões de brasileiros estão em insegurança alimentar grave, ou seja, passam fome. “Fica claro que, quanto maior a quantidade de crianças em uma casa, maior a chance de ter insegurança alimentar, mais fome. Há uma relação direta porque a demanda das crianças é maior”, afirma Rosana Salles Costa, do Instituto de Nutrição da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisadora da rede Penssan.
“Quando se tem uma criança em uma família com renda adequada, não há problema em pagar uma escola particular; ou, se for pública, consegue comprar material, atender demandas de saúde. Quando não, essas famílias têm de fazer escolhas”
A pesquisa leva em conta qualquer residência com ao menos um morador de até nove anos de idade. O levantamento foi feito em 12.745 domicílios de 577 municípios nos 26 estados e Distrito Federal, em áreas urbanas e rurais. A coleta de dados ocorreu entre novembro de 2021 e abril de 2022. Ela utiliza como parâmetro a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), também usada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O maior percentual de fome em casas com crianças pode ser um dos reflexos do novo recorte do Auxílio Brasil, que criou um piso que não levou em conta o número de crianças em uma casa. Com isso, uma residência com um adulto recebe hoje o mesmo valor (R$ 600) por mês que um lar onde morem cinco crianças e a mãe, por exemplo. “O valor do Auxílio Brasil não é suficiente para tirar a família da insegurança alimentar. Elas continuam sofrendo, e isso mostra quanto a renda é muito importante”, afirma Kiko Afonso, diretor da ONG Ação da Cidadania, uma das integrantes da rede Penssan.
