História: Paroquia de Carnaíba completa 78 anos

A Paroquia de Carnaíba, no interior de Pernambuco, completou neste sábado 20, os 78 anos de criação. Em especial, o Blog do Cauê Rodrigues, trás na publicação deste domingo 21, a história da criação da matriz e criação da paroquia lá nos anos entre 1945 e 1950.

 A NOVA IGREJA:
O desenvolvimento de Carnaíba deveu-se aos mesmos vários fatores normais das localidades do sertão, ou seja através do comércio nas vendas e feiras, das indústrias rurais de rapadura e farinha de mandioca, da agricultura e do criatório.

O fator religioso, mesmo sem a expressão de um quase santuário, como a Matriz de Nossa Senhora da Saúde de Tacaratu-PE,  teve notável influência. Num raio de mais de 20 km em todas as direções, Carnaíba atendia a todo sertanejo – antes de tudo um forte na sua fé! Praticamente, senão nem sempre de sacramentos, ao menos na fidelidade às orações individuais e nas devoções de tradição familiar. A capela construída pelo fundador, sem estilo de igreja, era pequena demais até mesmo para os habitantes da vila, já com suas quarenta casas naqueles fins do século XIX.

Missionários, como padre Ibiapina e frei Caetano de Messina, reclamavam contra seu acanhamento. E mais: ela já estava deslocada da rua e quase cercada pelo cemitério (hoje, trecho onde fica a Praça Nossa Senhora de Lourdes). Carnaíba exigia uma igreja à altura do seu desenvolvimento e de sua posição de Vila. Faltava no entanto, quem, entendido de igreja, desse o toque de reunir o povo generoso e pronto a a colaborar.

É quando aprouve à Divina Providência surgir o padre Frutuoso Rolim de Albuquerque, Vigário de Flores, inteligente, cativante, apostólico e arrojado – qualidades essas para empresas de largo fôlego. Trouxe a planta de uma igreja de 16,50m de largura e 30 cm de comprimento, duas torres, grande como a queria a altivez do povo. A fachada com cinco portas e cinco janelas no andar de cima. As três portas do centro abrindo para ampla nave central; as duas laterais, do corpo inferior das torres, fingidas ou cegas. O frontão triangular, cingido de cornijas, o tímpano com emblemas no centro, no ápice elegante acrotério suportando a cruz. O interior dividido em três naves, estreitas as duas laterais, separadas da central e larga por arcos romanos apoiados em colunas oitavadas sem base e em vez de capital uma simples cornija. Grande arco-cruzeiro ladeado de outros dois muito menores e correspondente às naves laterais. A sacristia projetada atrás de uma segunda.

 Escolhido o terreno na metade do comprimento da rua traçada pelo fundador, foi formada a Comissão de Construção; Saturnino Bezerra (Presidente), Antônio Pedro do Rodeador, Joaquim Barbosa, João Leandro, Manoel Joaquim do Alto do Oitizeiro, Joaquim Escrivão, Lourenço Alves, Manoel Leitão, os Carlos da Caiçara e João Martins.

Lançada a primeira pedra, benzida pelo padre Rolim, em 1897, e na mesma ocasião dado início da demarcação e abertura do alicerces, sob aplauso da multidão E o espoucar de foguetões.

Daí em diante era de se ver a intensa colaboração do povo, em dinheiro, materiais e trabalho. Um espetáculo dos domingos, mesmo sem missa (que só havia uma vez por mês), o povo reunido, de velhos a crianças, com suas vasilhas, carregando areia do Rio Pajeú, suficiente para os pedreiros trabalharem a semana. Cantando na maior alegria, era um dia de festa!

Os oleiros Zé Félix e Baião Simão (Sebastião Simão), de cada milheiro de tijolo vendido, davam cem para a igreja. A telha, fabricada pelo velho Borrego e Mundico (Raimundo Alves), também dada cem por mil.

A madeira, oferecida por Zé Queiroz da Matinha (tio de Zé Queiroz músico), Interessante a história de um grande tronco de pau bálsamo ou Cabreúva vermelha de 15m de comprimento por 50cm em cada face. Transportado do Boqueirão (perto da Matinha) ao ombro de 40 homens, numa caminhada de duas léguas. Ganhavam eles 500 réis por dia, sendo que alguns não recebiam em razão de promessa ou devoção ao santo. Acompanhava os carregadores um animal com farinha, carne, rapadura e café.

Ao meio-dia paravam, arriavam o tronco de madeira, almoçavam, descansavam, retornavam o tronco nos ombros e continuavam a viagem. O mesmo às 6h da tarde, para a janta, quando pernoitavam por ali mesmo, deitados no chão, ao relento.  Assim dia a dia já perto da Várzea do Capim Grosso um dos acompanhantes começou comemorar soltando foguetões até a entrada da rua. A multidão afluiu com todo o entusiasmo dando vivas ao padre Rolim e a Saturnino. Saturnino Bezerra em sua residência oferecia um banquete a Zé Queiroz e aos transportadores do tronco, que depois foi desdobrado em tesouras. Completadas por outras madeiras, cada tesoura só subia as paredes da nave central depois de batizado com o nome de uma menina, entre 8 a 10 anos de idade, e que se chamasse Maria. Algumas dentre elas: Maria Borreco, Maria Queiroz, Maria Francisca Xavier, Maria Cosmo, Maria Morato… Outra curiosidade singular: a igreja só tem tesouras, uma distante da outra apenas no meio metro dando um total de 50 tesouras. Dispensados os caibros, unicamente as ripas completam a armação de madeira da coberta.

As pedras, concedidas por Anjo Ribeiro (Ângelo Ribeiro), tiradas do Açude do Anjo (perto de Quixaba). uma delas, a maior, media 1,70 por 50 x 50, trazida arrastada por juntas de bois e colocadas como batente na entrada principal da igreja, daí por padre Macie, l foi retirada quando na abertura dos alícerceres da torre e colocada no recinto da orquestra do teatro).
Toda a cal foi doada por Antônio Pedro do Rodeador, produzida em sua pedreira. O transporte feito por João Caboclo, com seus quatro animais,  custando cada viagem dois mil réis, ou seja, cada carga  50 réis. De cada vez, uma carga ele concedia a igreja.
Os três irmãos Galdino, Moisés e Antônio Barros, pedreiros e carpinteiros do Sitio Rosilho,  levantaram a igreja. Outros pedreiros: Honorato Leandro, de Princesa (este trabalhou durante o período da epidemia da febre, tendo morrido da mesma Carnaíba), Manuel Ferreira e João  Amaral.
Enfim, cada trabalhador braçal e cada pessoa válida dava, gratuitamente, um dia de serviço por semana a igreja. Nunca se viu tantos trabalharem tanto, com fé, ideal e sacrifício, para a construção de uma igreja.
A INAUGURAÇÃO:
Em 1902, após 5 anos de trabalhos, esta situação da igreja; construção muito sólida e bem acabada, mas toda em preto por fora, sem altar, sem sacristia, e torres, o patamar construído todo de madeira, isto é, lastro e costado, estendidos na frente da igreja. Rebocada e caiada por dentro, bem que poderia, com mesa improvisadas de altar, funcionar de ambiente condigno para os atos religiosos. O padre Rolim, tendo de ir embora, transferido para Pesqueira, resolveu inaugurá-la naquele ano. Missa cantada, sermão, benção do templo, fogos, terno de pifes, enorme concorrência de fiéis até da vizinhança. Os dois sinos comprados por subscrição pública e que haviam levado um ano para chegar de Portugal, foram batizados, o maior com o nome de Santo Antônio e o menor com o de São Sebastião, e ficaram badalando e repicando quase aquele dia todo de grande festa.Acontecimento marcante e maior do que quando da elevação do povoado de Carnaíba à categoria de Vila. Com a saída do padre Rolim os trabalhos da igreja eu iriam sofrer longa parada de 10 anos. O novo Vigário de Flores, padre Anísio Torres Bandeira, até na própria assistência religiosa era parcimonioso.
Rascunho de como seria a igreja de Carnaíba em desenho de Padre Frederico Bezerra Maciel
A CRIAÇÃO DA PAROQUIA
Exigência Pastoral. Desde os tempos do fundador se falava em ter um padre Vigário residindo na terra, ou seja, que fosse criada uma freguesia. Compreendiam o padre, homem instruído como um elemento essencial de desenvolvimento religioso e social.
A condição básica material, o patrimônio, já existia. Faltava, o que foi dado pelo tempo, densidade populacional, pois não se dispunha de tanto padre para atender a pequenos aglomerados insuficientes até para manutenção da própria cura desde.
Desde década de 30 do presentes século passado, Carnaíba começara a fazer jus a esse anseios. Os vigários de Flores queixavam-se de não poder dar conta do serviço. Padres da vizinhança, esporadicamente davam assistência insuficiente. E os missionários de passagem reconheciam o movimento religioso em plena expansão.
Pressionado por tudo e levado pelo zelo pastoral, o bispo diocesano Dom Adalberto Sobral, assinou em 1945 o decreto da criação da paróquia, acrescentando ao antigo padroeiro, Santo Antônio, um outro “aeque principalis” (no mesmo pé de igualdade) – São João Vianney, o famoso Cura d’Ars  (da França), Vigário modelo e patrono dos vigários.

O bispo já tinha escolhido padre Frederico Bezerra Maciel para a honra de “pároco fundador”, apenas não o ingressaram de logo. Removeu o padre em fevereiro, de Vigário de Tacaratu para coadjutor de Triunfo e daí, em abril, para Flores, como Vigário e substituto, onde ficou aguardando o dia da posse marcada para 8 de agosto, então festa litúrgica de Santo Cura d’ars.

Cauê Rodrigues de Souza
Carnaíba em 21 de Maio de 2023

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