27 de fevereiro de 2013. Uma data que permanece marcada na memória dos carnaibanos.
Em meio à pior estiagem das últimas décadas, quando a população enfrentava dias de incerteza e desespero diante da escassez de água, uma reportagem da TV Jornal/SBT, articulada pelo então repórter da Rádio Transertaneja e blogueiro Cauê Rodrigues, colocou Carnaíba no centro das atenções de Pernambuco e do Brasil.
Naquele período, a Barragem do Chinelo, localizada na zona rural do município, era a única fonte de abastecimento de água para a cidade de Carnaíba. Além de atender a sede do município, o reservatório também abastecia comunidades rurais através de carro pipa também o município vizinho de Quixaba.
Desde 2012, a seca castigava toda a região do Pajeú. A barragem apresentava um cenário desolador: o espelho d’água havia desaparecido, restando apenas lama e pequenas poças. A situação era considerada de calamidade pública, enquanto moradores conviviam diariamente com o medo de ficar completamente sem água. Na época, a região ainda não era atendida pela Adutora do Pajeú, sistema responsável por levar água do Rio São Francisco para dezenas de municípios sertanejos.
Foi diante desse cenário que a população começou a procurar o então repórter Cauê Rodrigues, cobrando que a realidade vivida pelos carnaibanos chegasse ao conhecimento das autoridades federais, especialmente da Presidência da República.
Sensibilizado com os inúmeros apelos, Cauê articulou junto ao experiente jornalista Luiz Carlos Fernandes, da TV Jornal, afiliada do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) em Pernambuco, a realização de uma reportagem mostrando a situação crítica da Barragem do Chinelo, como mostram os registros fotográficos feitos por Toinho Geraldo.
Antes mesmo da chegada da equipe de televisão, a mobilização ganhou força através da programação da Rádio Transertaneja, onde Cauê convocou a população para comparecer à barragem durante as gravações e mostrar, pessoalmente, a gravidade da crise hídrica.
O resultado foi uma verdadeira manifestação popular. Dezenas de moradores atenderam ao chamado, concederam entrevistas e relataram o sofrimento provocado pela falta d’água. Apesar disso, segundo relatos da época, houve até tentativas de impedir a participação de populares, inclusive com orientações políticas para que algumas pessoas não comparecessem ao local. Ainda assim, a mobilização popular prevaleceu, transformando a reportagem em um importante registro histórico da maior seca vivida pelo município nos ultimos anos.
Dias antes da reportagem, os próprios registros jornalísticos já mostravam que a Barragem do Chinelo havia entrado em colapso, deixando Carnaíba praticamente sem abastecimento e obrigando o fornecimento emergencial por carros-pipa. Houve moradores que chegavam à época a pagar R$ 250,00 (Duzentos e cinquenta reais) por um abastecimento de carro pipa.
A repercussão da matéria ultrapassou as fronteiras do Sertão e ajudou a reforçar a necessidade de acelerar as obras estruturadoras para combater os efeitos da estiagem. Naquele mesmo ano, o Governo Federal deu andamento às etapas da Adutora do Pajeú, empreendimento que passou a garantir segurança hídrica para municípios como Carnaíba, Afogados da Ingazeira, Flores, Calumbi e outras cidades da região.
A chegada das águas do Rio São Francisco por meio da Adutora do Pajeú representou um divisor de águas na história do Sertão do Pajeú. A obra tornou-se fundamental para enfrentar a estiagem prolongada que castigou a região entre 2011 e 2014, reduzindo drasticamente o risco de colapso no abastecimento e oferecendo uma nova perspectiva para milhares de famílias.
Treze anos depois, a reportagem permanece como um dos registros mais emblemáticos da luta do povo de Carnaíba por água. Mais do que documentar um período de sofrimento, ela simboliza a força da mobilização popular e o papel do jornalismo regional em dar voz às comunidades, levando suas reivindicações aos centros de decisão do país e contribuindo para que um problema histórico do Sertão ganhasse a atenção que merecia.
