Um jogador de futebol de uma divisão de base do Clube Náutico Capibaribe denunciou, nesta quinta (27), ter sido vítima de preconceito racial e acusação de tentativa de furto de um carro, no Recife. O rapaz, que é negro e tem 16 anos, prestou queixa à polícia. “Me chamaram de nego e disseram que eu queria roubar”, afirmou o jovem atleta, em entrevista ao g1.
O rapaz e o pai dele foram até o Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente (DPCA), na Zona Oeste do Recife. Segundo o atleta, dois homens suspeitos de envolvimento no caso foram levados para a delegacia.
Por meio de nota, a Polícia Militar informou que registrou uma ocorrência de calúnia contra um menor de idade. A PM confirmou que levou envolvidos até a DPCA ”para serem tomadas as medidas legais cabíveis”.
Também por nota, a Polícia Civil informou que registrou ocorrência de calúnia. A corporação disse, ainda, que instaurou um procedimento, “visando apurar um possível caso de injúria racial.”
O caso veio à tona a partir de informações do advogado Émerson Leônidas, que está atuando com a família do jovem. O nome da vítima não será divulgado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O criminalista afirmou que se trata de um caso de injúria racial. “Ele foi ofendido por causa da cor da pele. É um menino de 16 anos, mas que é muito grande, um atleta”, afirmou.
Na entrevista ao g1, o jovem atleta do Náutico contou que tudo começou quando ele saiu do Centro de Treinamentos (CT), na Guabiraba, na Zona Norte do Recife, e parou em um posto de gasolina, que fica ao lado, para esperar o pai. “Comprei um refrigerante e fiquei esperando meu pai chegar”, disse.
Ainda segundo o adolescente, que integra a equipe sub-17, de repente, surgiu uma carreta com um homem dirigindo.
“Ele jogou o veículo para cima de mim e saiu perguntando o que eu estava fazendo ali e para onde eu iria”, afirmou o atleta.
O rapaz afirmou que respondeu, com calma, afirmando que estava esperando o pai para voltar para casa. O homem, de acordo com a vítima, insistiu com as perguntas e falou que ele estaria “mexendo em um carro” que estava perto do posto.
Depois, surgiram outros homens e repetiram a mesma história, afirmando que o jovem estaria tentando “roubar o carro”.
Uma dessas pessoas se identificou como dono da empresa de reciclagem de óleo, que fica perto do CT do Náutico e do posto.
“Ele disse que estava vendo pelas câmeras de segurança da empresa que eu estava mexendo para roubar o carro que estava estacionado”, lembrou o rapaz.
Outro homem, afirmou o atleta, também fez ameaças. “Ele disse que ia me tirar à força dali e que eu não sabia quem ele era e que ele conhecia um comissário”.
O rapaz contou que, nesse momento, ligou para o telefone 190, da Polícia Militar, e pediu a presença de uma equipe no local.
Com os PMs, o jovem foi até a empresa e pediu para os homens mostrarem as supostas imagens que mostrariam ele “mexendo no carro”.
“Meu pai me ensinou a agir dessa forma. Chamei a polícia e eles levaram dois homens para a delegacia. Um deles foi o que jogou a carreta e cima de mim e o outro acompanhou ele”, acrescentou.
O que diz a PM
Na nota, a PM relatou as informações repassadas pelo jovem atleta e deu detalhes da ocorrência desta quinta.
“O menor de 16 anos estaria em frente ao Centro de Treinamento do Náutico, ao telefone com seu genitor, quando foi abordado por dois homens, o indagando o motivo de ele estar tocando na maçaneta da porta do carro. De acordo com o adolescente, o proprietário do veículo o ameaçou e mandou ele sair do local”, disse o comunicado.
Crime
O crime de injúria racial fica caracterizado em casos de indução ou incitação à discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A pena prevista é de reclusão de um a três anos e multa.
Enquanto a injúria racial consiste em ofender a honra de alguém, o crime de racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.
O que diz o clube
Por meio de nota, o Clube Náutico Capibaribe repudiou e lamentou o caso de injúria racial e calúnia envolvendo o atleta da equipe sub-17.
“É inadmissível que cenas como essa ainda se repitam nos dias atuais. O preconceito, seja ele por raça, orientação sexual ou qualquer outra diferença, precisa ser combatido e seus autores punidos com veemência”, disse o comunicado.
Na nota, o Náutico disse, ainda, que se “coloca à disposição do atleta e sua família todo o departamento jurídico do clube”.
“Não serão medidos esforços para que o caso seja solucionado e as penas estabelecidas em lei aplicadas”, ressaltou.
