Em Carnaíba, no sertão pernambucano, quem tem hoje no mínimo seus 30 anos de idade, sabe muito bem como era o espetáculo da Paixão de Cristo, exibido ao ar livre pelas principais ruas de Carnaíba pelo extinto Grupo Cultural Jovem que tinha uma liderança de Toinho Geraldo, Lisboa Gomes, Inês Jurubeba, Gerson Siqueira entre outros.

Foi uma era em que Carnaíba se alimentava com cultura esforçada pelos jovens da época, incentivados por Toinho Geraldo que tinha retornado à Carnaíba após viver anos em Araripina-PE.
Idealizou o Grupo Cultural Jovem que fazia as reuniões em sua residência na Praça Nossa Senhora de Lourdes. Posteriormente o saudoso empresário Expedito Tenório, cedeu um prédio na Rua José Martins para a sede oficial do grupo para encontros, reuniões e armazenamento de materiais cenográficos, figurinos e afins.
Então no ano de 1991, estrearam como o belíssimo e espetacular espetáculo da Paixão de Cristo com um elenco de quase 200 atores e figurantes. Extraordinário! O espetáculo tinha inicio da pedreira de João de Duardo, onde hoje se localiza a casa do vereador Juniano Ângelo. Era lá que acontecia o Sermão da Montanha, onde Paulo Rodrigues Patriota interpretava como ninguém o protagonista Jesus Cristo que contracenava com Toinho Geraldo que vivia o satanás. Toinho que tinha seus longos cabelos, levou o personagem a sério, raspou sua cabeça deixando apenas um “rabo de cavalo” no meio da cabeça careca com um figurino preto e gargalhadas aterrorizantes que deixava o público de boca aberta.

O espetáculo dava continuidade pela Rua Santa Luzia, descendo a rua que se transformava na entrada de Jerusalém, forrada de ramos para o público e atores se sentirem do Monte das Oliveiras. Jesus (Paulo Rodrigues), descia montado em um jumento, como conta a bíblia sagrada, enquanto os figurantes gritavam “viva o filho de Daví”!
Em frente ao prédio do Banco do Brasil, acontecia a cena da Santa Ceia, onde Jesus com seus 12 apóstolos ceavam, Jesus lavava os pés dos apóstolos e ali era revelado o traidor Judas, vivido por Lisboa Gomes.

Jesus passava por outros cenários montados na Rua Saturnino Bezerra, enfrentava Anás e Caifás, destruiu o comercio na “casa do pai” até ser preso. Carregava uma enorme cruz verdadeira de madeira pelo final da Rua Saturnino Bezerra entrando pela Praça Nossa Senhora de Lourdes onde chegava ao palácio de Pôncio Pilatos, vivido pelo irreverente Gilson Malaquias, em um cenário montado em cima do prédio do antigo Castelinho. Alí, Pilatos lavou as mãos e entregava a vida de Cristo à responsabilidade do Rei Herodes.
O Palácio de Herodes era agitado, alí se esperava a exuberante apresentação de Salomé, vivida por Poliana Mendes. Era o fenomenal bacanal de Herodes, em um cenário em frente a casa de Vianney Mendes, na Praça Nossa Senhora de Lourdes. Poliana dançava a música árabe sensual e provocava Cristo. De lá Herodes o encaminhava de volta para Pilatos.

De volta ao cenário em cima do Castelinho, alí os figurantes eram indagados por Pilatos (Gilson Malaquias), de quem eles queriam que soltassem, Jesus ou Barrabás, vivido por Cauê Rodrigues. A multidão gritava ;-“Solta Barrabás”, ladrão e saqueador das estradas. Então Cristo era condenado!
O espetáculo seguia para a estação de trem, onde hoje é a Praça de Eventos Milton Pierre. Era o Calvário, onde Cristo era crucificado e morto na cruz entre dois ladrões também crucificados. Uma cena digna de cinema. O público chorava pela tão real cena vivida por Paulo de Inês. Maria e Maria Madalena se aproximavam da cruz. Os efeitos visuais de Gerson e Luiz de Joel levavam a cena a se tornar um espetáculo de luz. Um carro de som acompanhava as cenas com uma fita K7 gravada com todo o espetáculo na voz dos próprios atores.

Era uma tradição em Carnaíba, o publico já acostumava com o espetáculo que anualmente era apresentado nas quintas e sextas feira santa. Público de outras cidades lotavam camionetes para vir à Carnaíba assistir o espetáculo que chegou a ser o segundo maior do estado de Pernambuco, ficando atrás apenas de Nova Jerusalém, no agreste de Pernambuco.
Publico de Triunfo, Flores, Quixaba, Serra Talhada, Afogados da Ingazeira seguiam para Carnaíba para prestigiar o espetáculo que tomava conta das ruas da cidade.

dentre alguns atores da época; Lisboa Gomes, Toinho Geraldo, Gianott Malaquias, Gilson Malaquias, Betânia Malaquias, Fátima Aquino, Luiz de Joel, Jesus Geraldo, Jairo, João de Beta, Cauê Rodrigues, Neto da Praça, Luciano Catarroz, Luiz da Santa Rosa, Mery Monteiro, Rudimar, Suely Dantas, Edval Dantas, Alba Cleide, Cleide da Rua Nova, Fábio de Dilza, Otacílio Gomes dentre tantos outros.
A técnica era formada por Edval Dantas, Magela Geraldo, Gerson Siqueira, Chiquinho de Joel, Neto da Praça, inês Jurubeba entre outros.
Hoje, infelizmente, Carnaíba não tem o prazer de sediar um espetáculo como na década de 90. O grupo se esforçou para se manter, até 2010 ainda tentava cambalear exibindo um minúsculo espetáculo na Estádio Beira Rio. Não vingou! A falta de dedicação de jovens da época fez com que a atual direção do grupo abandonasse a realização do evento.
O Grupo chegou à apresentar o espetáculo na Casa da Cultura do Recife.
Fotos: Facebook de Toinho Geraldo

