Os votos mais cobiçados são dos evangélicos. Lula (PT) tenta conquistar protestantes, que representam 25% do eleitorado e podem garantir sua vitória no primeiro turno, enquanto Bolsonaro (PL) faz das tripas coração para não perdê-los. Em 2018, o segmento o colocou no Planalto com o dobro de votos dados a Fernando Haddad (PT). Como não pode mais usar o mote do combate à corrupção – porque seu governo, ele próprio e os filhos chafurdam nela –, o presidente se joga na seara religiosa, dizendo que “esta é a disputa do bem contra o mal”, para “honrar a Deus” e “preservar a família brasileira”.
Por Patrícia Zaidan
Ninguém reconhece em Bolsonaro um cristão, embora seja católico e batizado no rio Jordão, numa cena conduzida pelo pastor Everaldo, que foi preso em 2020 sob a acusação de atuar em desvio de recursos do enfrentamento à Covid-19, escândalo que afastou Wilson Witzel do governo fluminense. Quando lhe convém, repete o slogan “Deus acima de tudo”, mas conduz-se pela ira, cultua a morte e ataca os que não tolera, como gays, feministas, negros, índios, umbandistas e candomblecistas. Candidato à reeleição presidencial, teve que tomar emprestada a imagem evangélica da primeira-dama. Membro fervoroso da Igreja Batista Atitude de Brasília, Michelle Bolsonaro não queria mas acabou entrando na política – e o desafio de Lula para conquistar os protestantes aumentou.
Casada há15 anos, a primeira-dama foi sacada do conforto do Palácio da Alvorada para estrear na convenção do Partido Liberal, no Maracanãzinho, em 24 de julho. A eloquência de pregadora e a disposição para – nas palavras dela – usar os joelhinhos nas orações pela vitória do marido formaram o trunfo mais alvissareiro naquele evento insosso. Dali, seguiu para os palanques e a propaganda eleitoral, aparecendo mais que o vice da chapa e, às vezes, até mais que o marido. Michelle sabe manejar o arcabouço bíblico e usa frases de efeito, como ao acusar Lula de viver “nas trevas” e de ter deixado o Palácio do Planalto “consagrado ao demônio”. Para ela, Jair, pretensamente ungido por Deus, está no gabinete presidencial do terceiro andar da Palácio, porém quem “ocupa a cadeira principal é Jesus, o presidente maior”; “o rei que governa a nação”.
Com Michelle, Bolsonaro intensificou a ida a igrejas de diferentes denominações e reuniões de pastores. Para chancelar a “unção”, ele se cerca de gente como Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro. Até levou o controverso pastor a Londres, como membro da comitiva oficial, para assistir à cerimônia fúnebre da Rainha Elizabeth 2ª.
Lula precisou rever suas táticas. Havia dito que não faria “uma guerra santa” nem estabeleceria “rivalidade entre credos”. E que, não sendo candidato de uma religião, mas do povo brasileiro, trataria evangélicos como lida com católicos, muçulmanos, seguidores das linhas de matrizes africanas e judeus. Pretendia atingi-los pelo bolso, propondo alternativas para o desemprego e a fome. Afastou-se, porém, da pauta econômica para contra-atacar o QG do adversário. No primeiro ato de campanha, em 16 de agosto, em São Bernardo do Campo, chamou Bolsonaro de fariseu. Disse que ele mente para os evangélicos e tenta manipular a fé de homens e mulheres que vão à igreja tratar da espiritualidade. Retrucou fortemente a primeira-dama: “Se tem alguém possuído pelo demônio é Bolsonaro”.
Não reagia somente à bem-sucedida retórica de Michelle, mas, principalmente, às pesquisas. Se o país fosse feito de evangélicos, o marido dela ganharia no primeiro turno com mais da metade dos votos válidos. A reação de Lula pareceu promissora, como apontou o Datafolha em 15 de setembro: Ele saiu de 28% para 32% no segmento, enquanto Bolsonaro pulou de 49% para 51%. No entanto, o petista não repetiu o feito. Divulgada nesta quinta (22/9), a pesquisa com 6.754 brasileiros, realizada em 343 municípios, detectou Lula estacionado no voto evangélico, com 32%.
Em que pese a ampliação de 14 pontos na distância do adversário (Lula com 47%, Bolsonaro 33%), e tendo crescido entre as mulheres (de 46% saltou para 49%) – o petista precisa avançar no segmento, já que a terceira via, segundo o Datafolha, soma 12% pontos (Ciro, do PDT tem 7% e a emedebista Simone Tebet, 6%). Vencer no primeiro turno se tornará mais fácil atraindo, sobretudo, protestantes indecisos, na faixa de 8%.
O contra-ataque do Núcleo dos Evangélicos do PT
Há anos, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), presbiteriana, adverte o partido para o crescimento do número de protestantes, as mudanças que promovem nas igrejas e o quanto eles querem ser ouvidos. Grande parte da esquerda prefere manter-se distante por considerar que evangélicos são atrasados, contrários aos direitos das mulheres, preconceituosos com homossexuais e arredios à flexibilização dos costumes. Isto tem custado caro a Lula. Há pouco mais de um mês, indo ao Rio, o candidato petista almoçou na casa de Benedita, com quem se aconselha quando o assunto é a religião. “Tenho mostrado a Lula como este mundo é diverso, com várias doutrinas, ramificações e particularidades”, conta a deputada, candidata à reeleição. “O PT nunca abandonou a religião de ninguém. E contou com evangélicos na construção do governo” diz. “Porém, digo a Lula que deve dar mais ouvidos a eles – como tem feito. Não acho que deve fazer promessas, mas seguir tratando com um cidadão que tem direitos e deveres. Lula está certo em dizer que a Presidência garantirá a laicidade do Estado, mas que respeitará à fé religiosa de cada brasileiro”. Para Benedita, ele não precisa fingir que é cristão. “Lula é. Tem compaixão, oferece pão para o faminto, acolhida para o desabrigado e justiça social. Seus atos são de solidariedade com os que mais sofrem. E isto o povo entende.”
A comunicação deste pensamento e destas atitudes – o que ainda parece difícil para o PT e a esquerda – começou a ganhar contorno com as investidas dos Núcleos dos Evangélicos do PT, espalhados pelo país inteiro e cuja coordenação nacional cabe à Benedita. “Não levamos a política para o púlpito nem a igreja para dentro do governo, mas o governante tem que entender melhor como os grupos religiosos se organizam e o que reivindicam”, afirma ela. “Nunca trabalhamos tanto como agora, tentado barrar a quantidade espantosa de fake news que circulam nas igrejas”, diz Nalu Rosa, professora universitária, pentecostal, uma das coordenadoras do Núcleo do Rio de Janeiro. “Até hoje a conversa sobre o kit gay está entre os evangélicos. Muitos, mesmo tendo cultura e escolaridade alta, ainda acreditam que Lula pode implantar o comunismo, incentivar o aborto, a pedofilia e a transformação de crianças em gays.”
Em quase todas as cidades onde Lula aporta em campanha, encontra já no aeroporto numeroso grupo de evangélicos com faixas. Não raro, eles o levam a visitar comunidades. “Estamos movimentando nossas estruturas e os nossos pesquisadores para acompanhar como a mensagem tem chegado aos evangélicos e o que eles comentam”, diz Benedita. Com base nestes levantamentos, Lula tem se dirigido mais às mulheres, que são 60% do segmento. Recentemente, fez uma reunião com empregadas domésticas do país inteiro e citou propostas para os filhos e as filhas delas. “Sozinho, o discurso econômico não cola, porque a importância da família é maior para as evangélicas”, pondera Nalu. “As mães até enfrentam privações financeiras, mas não querem ver sua família destruída”, observa. “Então, dizemos que a proteção dos filhos passa pela economia. Ter casa e comida é pauta fundamental, é de Deus.”
Videira não dá figos. Bolsonaro jamais dará bons frutos nem bom governo
A vida de primeira-dama é de luxo, mas boa parte das protestantes se enxerga em Michelle, apesar de morar em bairros pobres, periferias e rincões rurais onde o Estado não chega e falta tudo. O ponto em comum é o papel que tanto Michelle como elas exercem. “A mulher, na maioria das famílias, é a coluna de sustentação em oração. Se o marido é dependente de álcool ou o filho está no mundo do crime, ela ora, e a comunidade inteira ora junto”, explica Nalu. Na Igreja, sabem que Bolsonaro demonstra contradições e que se batizou sem a real conversão a Jesus. Mas ele tem Michelle. Ela também sabe que o marido é bruto com mulheres, fala palavrões, defende armas, deixou milhares morrerem por Covid e, no entanto, parece crer, como muitos evangélicos, que “Deus tem um plano para a vida de Bolsonaro”. E é a fé de Michelle – no entendimento desses fiéis – que permitiria a execução desse plano. Alguns até o defendem: “Bolsonaro pode ser o que for, mas tem por trás uma serva de Deus”. Neste meio, é comum lembrar a passagem do livro dos Números, do Antigo Testamento, em que o Anjo do Senhor usa uma jumenta para se comunicar com seu dono, Balaão, que não atendia uma ordem celestial. “Se o Senhor usou um animal para aquela missão, por que não usaria Jair Messias?”, argumentam.
O contraponto usado pelos evangélicos de esquerda, conta Nalu, tem respaldo na Bíblia. Por exemplo, em Tiago, 3:12, se lê: “Meus irmãos, pode uma figueira produzir azeitonas ou uma videira figos? Da mesma forma, uma fonte de água salgada não pode produzir água doce”. Nalu costuma perguntar aos influenciados por Bolsonaro: “Como o incentivo ao ódio e o desprezo pelos doentes com Covid pode vir de árvore boa?”
Nesta lógica, Bolsonaro jamais daria bons frutos ou um governo decente. Nem mesmo com os apoiadores fazendo um mês de jejum pela vitória dele, como propôs Michelle. Faltando poucos dias para o primeiro turno, os evangélicos da esquerda seguem em cruzada, modulando o discurso às diversas situações. Nas periferias, por exemplo, a ameaça do comunismo não assusta – atinge mais as classes altas, que temem perder seus bens. Nos morros e favelas, tentam desmontar a falácia da “consagração” da sede do governo federal ao demônio. Isto, sim, calou fundo ali. “Michele usou um fenômeno, sobre o qual evangélicos não precisam ver provas, basta apenas crer”, explica Nalu. “Temos feito um trabalho de formiguinha para depurar tudo isto, mas não é fácil”, afirma. “No paralelo, levamos informações: Lula sancionou a lei que garante personalidade jurídica às igrejas, criou o Dia da Marcha para Jesus. E Dilma instituiu o Dia do Evangélico. Nunca fecharam um só templo.” Há ainda conversas ao pé do ouvido, entre irmãos, sugerindo que sigam as orientações espirituais do pastor, mas vendo-se constrangidos com a determinação de voto em um candidato, não precisam acatar.
O cientista político Vinicius Valle, diretor do Observatório Evangélico, criado para informar e desfazer preconceitos contra os protestantes, analisa a figura de Michelle na mesma linha: “Ela tem o gestual, os signos e transita livremente no setor porque é de fato evangélica. Cita passagens bíblicas de forma orgânica e ocupa um outro lugar de fala – que não é o dos políticos”. Vinicius considera que a esquerda falha quando não enxerga os valores do segmento. Para ele, petistas deixaram a direita levar sozinha a pauta da família – mesmo sob o viés conservador, que a reconhece apenas na modalidade homem-mulher-filhos. “Parece que família é preocupação exclusiva de Bolsonaro” adverte ele. “Há várias entradas para abordar o assunto. Lula acertará mais associando a família ao discurso que já faz. Cuidar dela é prever a ampliação da assistência aos idosos, aposentadoria justa, tempo de qualidade com os filhos, paternidade responsável, apoio à mãe solo para criar as crianças…”
A máfia escondida atrás do púlpito
A campanha de Lula precisa enfrentar também a máfia capitaneada por pastores pró-direita, que em geral são os adeptos da Teologia da Prosperidade, segundo a qual a bênção divina pode se manifestar por meio da riqueza material. Não por acaso, eles detêm emissoras de rádio em cidades pequenas ou grandes redes de comunicação, como a Record, de Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus. Há quatro décadas, por meio de jornais, portais de notícia e, principalmente, da TV, eles não só consolam almas sofridas, por meio de mensagens religiosas, como conquistam patrimônios pessoais. Ao mesmo tempo, fazem crescer o número de fiéis. Nos anos 1980, o rebanho representava modestos 7% da população, hoje responde por 28%.
Com a máquina de comunicação na mão e um exército de adeptos, pastores e membros da elite evangélica chegaram ao poder. Ou ajudaram a colocar em postos-chaves os seus escolhidos. Em 2018, Edir Macedo pôs a Record à disposição de Bolsonaro. Feriu a legislação eleitoral dando ao então adversário de Haddad espaço para longas entrevistas, além de veicular reportagens que diziam que o petista transformaria o país “em uma Venezuela”. Os pastores pró-direita não têm pudores de usar os cultos religiosos para impor seus candidatos e satanizar oponentes. Se perderem a eleição, agradam o chefe do Executivo da vez, como grandes aliados. Mas desembarcam da aliança quando lhes convém. Como fez o ex-deputado Eduardo Cunha (PTB), da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, que foi íntimo do governo Dilma Rousseff (PT) e, ao presidir a Câmara dos Deputados, pilotou covardemente o impeachment que a arrancou do poder.
Foi na Constituinte, em 1987 que os líderes das igrejas evangélica passaram a planejar formas de entrar com força no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas, Câmaras Municipais e no Executivo. Nos últimos 20 anos, só a Assembleia de Deus elegeu 110 parlamentares para a Câmara e o Senado, pelo PL, PSDB, MDB e PT. É feroz a disputa que eles travam na bancada evangélica, que parece ser unida, mas não é. Ela tem políticos de esquerda, direita e extrema direita, de diferentes igrejas e ramificações. Todos querem protagonismo. “Eles não discutem, por exemplo, políticas sociais de emprego ou geração de renda. E agem em bloco para votar as pautas de costumes”, observa Benedita, que se elegeu para a Câmara pela primeira vez em 1987, e para o Senado em 1995. O pastor Marco Feliciano (PL-SP), da Catedral do Avivamento, chegou à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013, deixando evidente que barraria qualquer possibilidade de avanço civilizatório e no campo dos direitos dos homossexuais e das mulheres. Ele tenta a reeleição repetindo uma frase que confirma o tipo da unidade que o conservadorismo mantém: “Hoje, não passam mais leis que aviltem as nossas tradições”. Parlamentares desta ala são igualmente coesos na aprovação de projetos que os beneficiam. Ou no apoio à medidas de Bolsonaro, como a do mês passado, que ampliou a isenção de impostos para a remuneração dos pastores.
